Por trás da parceria mais estranha do Mundial de 2026 está uma teia de holdings ligada à família real de Abu Dhabi, um contrato estimado em 150 milhões de dólares e uma plataforma que, na prática, quase ninguém pode usar.
Entre os patrocinadores oficiais da Copa do Mundo de 2026 está uma empresa que a maioria dos torcedores nunca ouviu mencionar. Chama-se ADI Predictstreet e ocupa, nos estádios e nas transmissões, o mesmo espaço publicitário de marcas centenárias como Coca-Cola e Adidas. Uma apuração cruzando reportagens da Front Office Sports, Bloomberg e Gambling Insider mostra que essa empresa foi criada às pressas nos dias que antecederam o anúncio da parceria, está registrada em um único território do mundo e, meses depois de estampar o torneio mais assistido do planeta, segue praticamente sem usuários.
O anúncio e os números que não fecham
Em 2 de abril de 2026, a FIFA anunciou a ADI Predictstreet como sua primeira “Parceira Oficial de Mercado de Previsões” da história, categoria distinta das apostas esportivas tradicionais, em que o usuário compra contratos de “sim” ou “não” sobre resultados de eventos. Segundo a Bloomberg, o contrato foi fechado por cerca de 150 milhões de dólares, valor no patamar dos maiores patrocinadores do torneio.
O problema é o histórico da empresa até aquele momento. Conforme apurou a Front Office Sports, a conta da ADI Predictstreet no Instagram tinha pouco mais de cem seguidores e fez sua primeira publicação apenas uma semana antes do anúncio da FIFA. O perfil no X também foi aberto em março. A plataforma só recebeu licença da Comissão de Jogos de Gibraltar, seu único território regulador no mundo, dias antes de anunciar o patrocínio, e seu site não processava transações antes do início dos jogos.
Na prática, isso significa que a imensa maioria dos torcedores do planeta não pode usar legalmente a plataforma que estampa o Mundial. Gibraltar tem cerca de 35 mil habitantes.
Quem está por trás da empresa
A ADI Predictstreet integra uma cadeia de empresas que remonta à família real de Abu Dhabi. Segundo a Front Office Sports e a Bloomberg, a empresa é subsidiária da Finstreet Limited, controlada pela International Holding Company (IHC), a maior companhia listada na bolsa de Abu Dhabi. A IHC é presidida pelo xeque Tahnoon bin Zayed al Nahyan, irmão do presidente dos Emirados Árabes Unidos, conselheiro de segurança nacional do país e à frente de um império avaliado em mais de 1,3 trilhão de dólares, que inclui ainda a autoridade de investimentos soberana do emirado (ADIA) e o maior banco do país.
A plataforma de apostas em previsões roda sobre uma blockchain própria, a ADI Chain, mantida por uma fundação também vinculada à mesma holding.
Kristian Coates Ulrichsen, pesquisador do Baker Institute da Universidade Rice especializado em Oriente Médio, disse à Front Office Sports que o acordo pode representar para a FIFA uma porta de entrada para o capital de investimento dos Emirados. Analistas ouvidos pela reportagem enquadram o movimento em um padrão mais amplo da gestão de Gianni Infantino: o Catar sediou a Copa de 2022, a Arábia Saudita sediará a de 2034 e colocou a Aramco, sua petroleira estatal e uma das empresas mais valiosas do mundo, como parceira mundial exclusiva da FIFA na categoria energia até 2027. Para essa leitura, os Emirados agora entram no relacionamento pela porta das apostas.
Um patrocínio sem usuários
Os números de uso da plataforma, levantados pela Front Office Sports com base em dados públicos, escancaram o descompasso entre a exposição comprada e o interesse real do público. No mercado sobre o campeão do torneio, a Kalshi, concorrente sem qualquer contrato com a FIFA, havia movimentado mais de 549 milhões de dólares até o fim de junho. A Polymarket, outra concorrente sem vínculo oficial, ultrapassava 3 bilhões de dólares no mesmo mercado. A parceira oficial da FIFA somava 57 mil dólares. Em partidas específicas da fase de grupos, como Argélia e Áustria ou Croácia e Gana, os valores negociados na plataforma oficial não passaram de poucas dezenas de dólares.
A Bloomberg apurou que, em diversas partidas da primeira fase, a ADI Predictstreet atraiu menos de 100 dólares em apostas somadas, em jogos que movimentaram dezenas de milhões de dólares em outras plataformas.
O resgate: Kalshi entra em cena
No fim de junho, em meio às oitavas de final, a ADI Predictstreet anunciou uma parceria de “co-branding” justamente com a Kalshi, a concorrente que dominava o mercado sem ter contrato com a FIFA. Pelo acordo, a marca da Kalshi passou a aparecer ao lado da ADI Predictstreet nos estádios, nas transmissões de TV e nos canais digitais a partir das oitavas, e a Kalshi passou a direcionar parte de seu volume internacional para a plataforma da parceira oficial.
A Bloomberg apurou que a Kalshi pagou aproximadamente 20 milhões de dólares por esse acordo, uma fração dos 150 milhões cobrados pela FIFA por um patrocínio direto. Em outras palavras: a empresa que rejeitou pagar o preço pedido pela FIFA conseguiu a mesma visibilidade nos estádios por menos de um sétimo do valor, comprando o acesso de quem já havia pago.
Procurada pela Front Office Sports, a ADI Predictstreet respondeu que está “expandindo o acesso por meio de uma série de parcerias estratégicas” e não detalhou seu volume total de negociações.
O que fica depois da bola rolar
A Copa do Mundo de 2026 consolidou os mercados de previsão como parte do espetáculo esportivo, com bilhões de dólares movimentados em plataformas que sequer têm contrato com a FIFA. Nesse cenário, chama atenção que o único parceiro oficial da entidade nessa categoria seja também o que menos consegue demonstrar uso real da própria plataforma.
O episódio também expõe uma contradição estrutural que atravessa o futebol contemporâneo: jogadores são proibidos por regulamento de apostar em partidas, mas o mesmo esporte que veta a aposta ao atleta lucra, e cada vez mais, com o patrocínio das casas que vendem essa aposta ao público. A regra distingue quem pode lucrar com o jogo de apostas e quem não pode. A Copa de 2026 tornou esse contraste mais visível do que nunca.
Fica em aberto a pergunta que resume o episódio: se praticamente ninguém usa a plataforma, o que exatamente os 150 milhões de dólares pagos pela ADI Predictstreet compraram?
