Bastou uma foto. De repente, cabelos ganharam volume, bigodes reapareceram, jaquetas ficaram coloridas e muita gente se viu diante de uma versão de si mesma saída diretamente dos anos 80. A nova trend que tomou conta das redes neste domingo começou como brincadeira, mas acabou mexendo com algo que nenhum aplicativo consegue fabricar: memória afetiva.
Talvez esteja aí a graça. Muitos dos que entraram na brincadeira eram crianças naquela década. Alguns talvez guardem poucas lembranças. Mesmo assim, olhar para aquela imagem artificialmente envelhecida foi suficiente para abrir uma gaveta que estava fechada havia muito tempo. Vieram à mente as músicas, as novelas, os programas televisivos de auditórios. E aquele rádio ligado dentro de casa na rádio Sociedade? Sem falar na fita K7 que precisava ser rebobinada. O telefone que ficava na sala e obrigava qualquer conversa mais interessante a acontecer sob a fiscalização involuntária da família inteira.
Vieram também as brincadeiras na rua. O futebol até escurecer, a bicicleta, a bola de gude, o pega-pega. A conversa na porta de casa, a visita que chegava sem mandar mensagem perguntando se podia aparecer. E talvez seja justamente isso que tanta gente tenha encontrado naquela brincadeira: não apenas saudade dos anos 80, mas saudade de uma forma diferente de viver.
É curioso que tenha sido justamente a tecnologia, tantas vezes apontada como responsável pelo nosso afastamento, que tenha nos levado de volta a uma época em que ela praticamente não existia no cotidiano. Usamos inteligência artificial para lembrar do tempo em que inteligência artificial parecia coisa de filme. Há uma ironia bonita nisso. Não significa que tudo era melhor. Não era!
Os anos 80 tinham problemas, dificuldades, violência, inflação e muitas incertezas. A memória costuma guardar algumas coisas e gentilmente esconder outras. Mas havia uma inocência que parece ter ficado pelo caminho. Havia mais olho no olho, mais conversa sem pressa, mais espaço para o improviso. Uma criança podia passar uma tarde inteira com uma bola, cinco amigos e absolutamente nenhuma necessidade de registrar aquilo para provar depois que tinha sido feliz.
Hoje fotografamos o almoço antes de comer, filmamos o show em vez de simplesmente assistir e, muitas vezes, sabemos mais sobre a rotina de quem mora a milhares de quilômetros do que sobre a vida do vizinho. Talvez essa nostalgia diga alguma coisa também sobre a política.
Passamos a viver num país em que praticamente tudo precisa escolher um lado. Até assuntos simples acabam transformados em disputa. As redes aproximaram políticos dos eleitores, mas também ajudaram a criar trincheiras onde deveria existir conversa. Nos anos 80, o Brasil atravessava justamente um período decisivo de reconstrução democrática. Havia diferenças enormes, manifestações e disputas duríssimas. Mas também existia a esperança de recuperar o direito de falar, escolher e participar.
Quatro décadas depois, talvez estejamos precisando recuperar outra coisa bem mais simples: o direito de discordar sem transformar o outro em inimigo. No fim das contas, aquela foto com cabelo estranho, roupa espalhafatosa e aparência de álbum antigo talvez diga muito mais sobre nós do que imaginávamos. Não queremos realmente voltar aos anos 80. Queremos reencontrar algumas coisas que deixamos por lá: a confiança, a capacidade de rir de nós mesmos e a proximidade das pessoas.
Seria tão bom reviver aquela sensação maravilhosa de que, quando alguém estava ao nosso lado, estava realmente ali.
Flávio Gomes é jornalista e colaborar do Outro Eixo
Foto Reprodução Redes Sociais
